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Quando “só um copinho” vira alcoolismo e o que a pandemia tem a ver com isso

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De acordo com o estudo Convid, realizado pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), 18% dos brasileiros estão bebendo mais desde o começo da pandemia. O maior crescimento aconteceu entre pessoas de 30 a 39 anos.

O aumento do consumo também foi relatado pelas pessoas que se sentiram mais tristes e deprimidas neste período. A pesquisa foi feita com 44.602 pessoas entre 24 de abril e 8 de maio.

Já o estudo CovidPsiq, realizado por pesquisadores de diversas universidades brasileiras liderados pela UFSM (Universidade Federal de Santa Maria), mostrou que 61% das pessoas em isolamento social consumiram álcool. Dessas, 30% aumentaram o consumo durante o período de pandemia.

Esta pesquisa apontou algo semelhante ao revelado pela Fiocruz: o aumento no uso de álcool ou substâncias ilícitas durante o período de isolamento social é associado a sintomas de estresse e depressão.

A percepção de que temos mais posts e memes nas redes sociais ligando bebidas ao alívio do estresse e da sensação de incerteza que vivemos no dia a dia não é mera coincidência.

E isso não acontece só no Brasil. Um artigo científico, publicado na revista Alcohol and Drug Review, por um grupo internacional de pesquisadores, com participação da OMS (Organização Mundial da Saúde), aponta que a angústia psicológica, o isolamento social e a incerteza sobre o futuro, causados pela pandemia, estão levando a um aumento na procura por bebidas alcoólicas no mundo.

Uma das coautoras do artigo, Zila Sanchez, professora da Escola Paulista de Medicina da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), explicou que a expectativa era de que os brasileiros beberiam menos neste momento de isolamento social, mas isso não aconteceu.

“Os brasileiros estão bebendo mais na quarentena pois estão com mais medo do futuro e mais tempo livre. A gente acreditou que o consumo seria menor porque as pessoas bebem muito fora de casa. Mesmo com toda a limitação dos bares fechados, as pessoas estão bebendo em casa por estarem expostas às promoções, e está ficando mais fácil e barato comprar agora que no passado.” – ZILA SANCHEZ, PROFESSORA DA UNIFESP

Estudiosa de epidemiologia e prevenção ao uso de drogas, Sanchez explica que o álcool pode ser um grande vilão deste momento difícil. “As pessoas estão argumentando que bebem para lidar com a ansiedade, depressão e o medo. O álcool pode dar um alívio imediato, mas exacerba todos esses transtornos mentais. A pessoa bebe para dormir, mas o álcool altera o ciclo de sono e isso vai aumentar a insônia. Então só piora; a ansiedade só aumenta. Você pode ter por algumas horas uma sensação de relaxamento, mas o problema se potencializa”, descreve.

Além de tudo isso, é importante frisar que beber álcool com frequência enfraquece o sistema imunológico e pode aumentar o risco de infecções bacterianas e virais — e, como você já deve estar cansado de saber, a covid-19 é causada por um vírus, o Sars-CoV-2.

Mas, afinal, quando ‘só um copinho’ vira abuso ou alcoolismo?

Você é daquelas pessoas que conta os minutos para a semana acabar logo e poder dizer que finalmente SEXTOU??? Pra muita gente, o sextou está diretamente ligado ao consumo de bebidas alcoólicas. É uma tacinha de vinho, uma cerveja long neck, uma dose de whisky. Às vezes é isso vezes dois. Ou vezes quatro. O problema é quando é vezes dez, vezes vinte…

A perda de controle da vida e a total entrega à bebida vão implicar o diagnóstico de alcoolismo. É uma doença caracterizada por uma série de comportamentos, como “a pessoa precisar substituir compromissos diários pela bebida, prejudicar as suas atividades como um todo, ter grande tolerância ao álcool e ter síndrome de abstinência” se ficar sem ele.

Mas antes de chegar a esse estado crítico, existe o abuso de álcool — que também é um problema. Isso está muito mais presente na rotina dos brasileiros desde o começo da pandemia.

A professora Zila Sanchez explica que o abuso acontece quando existe uma constante vontade de beber. “As pessoas têm começado a beber mais cedo durante o dia e ainda bebem várias vezes ao dia. Então, o álcool começa a fazer parte da rotina, o corpo fica sob efeito do álcool o dia todo e vai se acostumando com a presença dessa bebida. É quando a pessoa diz ‘só vou beber esse copo’ e acaba bebendo três ou quatro”, explica Sanchez.

Ela alerta ainda que não existe uma dose segura para o consumo de álcool pelas pessoas. Há quem diga que se beber quantidade A ou B de bebida pode ser seguro, mas não.

“A gente tem estudos já mostrando que mesmo uma dose de álcool por dia aumenta a chance de ocorrência maior de doenças crônicas não-transmissíveis como por exemplo questões cardiovasculares, problemas gastrointestinais, de fígado, que não necessariamente só ocorrem se você for um alcoolista.”

A professora também nos explica que um quadro de alcoolismo pode demorar anos, às vezes décadas para ser detectado. Mas se houver um grande abuso constante no consumo de álcool, algo que pode acontecer em uma pandemia, esse tempo pode até diminuir.

E o que fazer quando se dar conta de que está bebendo demais? Sanchez relembra que não existe uma dose segura de álcool, mas se a pessoa optar por beber mesmo assim, “o menos arriscado é beber durante as refeições e tentar se manter em uma dose por dia, que seria o padrão de menor risco. O efeito do álcool acaba sendo menor ao diluir no processo de digestão”.

Neste momento em que vivemos uma pandemia, estas são as orientações da OMS em relação a como lidar com o consumo de álcool.

  • Evite o consumo (ou diminua a quantidade e frequência)
  • Evite estocar bebida em casa para assim diminuir o consumo
  • Evite beber para lidar com emoções e medos. A combinação de isolamento e bebida alcoólica pode aumentar o risco de suicídio
  • Não misture álcool com medicamentos, todos podem ter seus efeitos prejudicados pela bebida
  • Evite o consumo de álcool se você fuma ou parou de fumar
  • Converse com as crianças sobre álcool e covid-19
  • Tenha certeza de que crianças e adolescentes não têm acesso fácil ao álcool
  • Procure ajuda se o seu consumo ou de algum conhecido está fora de controle
O consumo excessivo de álcool já estava presente antes da pandemia

O número de adultos que bebem de forma abusiva vem crescendo no Brasil nos últimos anos. Uma das pesquisas mais abrangentes da saúde da população brasileira é a Vigitel (Vigilância de Fatores de Risco para doenças crônicas não transmissíveis do Ministério da Saúde), realizada anualmente nos 26 estados e no Distrito Federal.

Os dados de 2019 mostram que a população brasileira está comendo mais frutas e hortaliças e fazendo mais atividades físicas. Ao mesmo tempo, aponta diversas características nada animadoras, como o aumento da obesidade, da diabetes e do consumo excessivo de álcool.

Levando em consideração ambos os sexos, em 2006 (primeiro ano de realização da pesquisa) 15,7% da população abusava no consumo do álcool. Esse dado aumentou para 18,8% dos brasileiros em 2019. Se olharmos só para as mulheres, em 2006 7,8% abusavam do consumo do álcool, enquanto em 2019 o número subiu para 13,3% – o maior índice desde o início da Vigitel.

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